Cronica/Opinião -TEIMOSIA CAUSA CEGUEIRA/ Quando vai chegar aqui? - José Renato Nalini


Há cinco séculos, Michel de Montaigne criticava a educação convencional. Coloca-se um número de várias dezenas de pessoas no mesmo espaço, faz com que elas se enfileirem e as submete ao mesmo sacrifício: ouvir preleções em silêncio. São pessoas com identidade, temperamento, inclinação, origem e anseio muito próprio. Transmite-se o mesmo conteúdo. E depois se estranha quando apenas quatro ou cinco “dão certo na vida”.
Ninguém ouviu Montaigne, nem leu os seus “Ensaios”. Continua-se a fazer tudo igual. Mas nem todos. A Nova Zelândia, por exemplo, não acredita no velho esquema. Dá às suas escolas um grau de autonomia como não existe no restante do planeta. Em 2017, foi o país eleito como o que melhor educa para o futuro, pela revista britânica “The Economist”.
Deixou para trás Canadá, Finlândia e Suíça, que também concorriam em quesitos como presença de resolução de problemas nos currículos e percentual de gastos na educação. O Brasil, entre 35 países, ficou em 22º lugar. A receita é bem conhecida: aprender não é decorar. As crianças praticam aprendizagem com objetos como serrotes, martelos, enxadas. Isso é mais producente do que ensinar a decorar coletivos, por exemplo.
  • Mas a teimosia é um vício que também leva à cegueira. E o pior cego é o que não quer enxergar.
A resposta dos professores é “Faça você mesmo!” ou “Pergunte antes a três colegas”. O professor inglês Richard Wells, que se mudou para a Nova Zelândia, chamou o País de “paraíso da aprendizagem”, no livro que escreveu em 2016. Conta que ouviu de um aluno: “O senhor poderia, por favor, parar de falar?”. Foi durante uma aula em 2009, quando ele ainda exercitava o método clássico de ensinar. “Se o professor fala por mais de 15 minutos, está errado. O jovem não se concentra mais do que isso com alguém à frente da sala”.
Os alunos escolhem o que querem aprender, num cardápio de 40 opções, dentre as quais marcenaria, programação, culinária ou jardinagem. Eles têm 6 matérias por série no currículo. Apenas por alguns semestres são obrigatórias inglês, matemática, ciências, filosofia, estudos sociais e educação física. O restante é eletivo. No Brasil ainda temos 13 disciplinas. E milhares – sim, são milhares! – de projetos de lei para incluir novas disciplinas no currículo oficial, tanto do Ensino Fundamental como do Ensino Médio.
É claro que Nova Zelândia e Brasil são muito diferentes. Sua população é de 4,7 milhões. A nossa, 208 milhões. O IDH deles é o 13º e o nosso, o 79º mundial. No PISA, em matemática eles estão em 22º e nós em 65º. Em leitura, eles são o décimo, nós o sexagésimo segundo. No ranking de percepção sobre corrupção, Nova Zelândia é o país com menor percepção de corrupção em todo o mundo. Nós estamos em 96º.
Mas exatamente porque somos enormes, gigantescos, somos vários Brasis, mais se justifica prestigiar as diferenças, a heterogeneidade e se conceder mais autonomia às escolas.
Impera a tendência à homogeneidade, à blindagem, a preocupação com rankings que, paradoxalmente, sempre nos reservam os piores lugares. Mas a teimosia é um vício que também leva à cegueira. E o pior cego é o que não quer enxergar.



Um dos problemas brasileiros decorrentes de nossa incipiente consciência a respeito de sustentabilidade é o da ausência de logística reversa. No Primeiro Mundo, quem fabrica um produto é responsável por sua vida útil e pela reciclagem do que restar após haver atendido à destinação para a qual preordenado. Aqui, além de inexistir essa responsabilidade por parte do fabricante, a quase inexistente educação ambiental acarreta danos nefastos para a natureza e para as pessoas. Tudo é descartável, tudo é arremessado fora nos lugares mais insólitos. Lixo abundante e disperso. Cidades imundas. Atestado de nossa total ignorância ecológica.
Enquanto isso, a 4ª Revolução Industrial a produzir milagres. O gerenciamento de ativos por parte de quem possui discernimento é inteligente. Produtos e serviços se beneficiam da melhoria de recursos digitais que agregam valor e geram renda maior para fabricantes e prestadores.
Novos materiais convertem os bens em coisas mais duráveis e resistentes. Dados e análises transformam o papel da manutenção. A Tesla comprova que as atualizações de software e conectividade por meio da tecnologia “over-the-air” (no ar), podem ser utilizadas para aprimorar um automóvel. Isso acabará com a depreciação que todos experimentamos. Quem já não sofreu a decepção de sair com o carro zero da concessionária e tomar conhecimento de que, naquele dia, ele já perdeu 30% do seu valor de compra?
A manutenção proativa maximiza a utilização do produto. Em lugar de procurar falhas específicas, usam-se dados comparativos sobre o desempenho, com base nos informes colhidos pelos sensores e monitorados por algoritmos. Eles avisam quando uma parte do equipamento está fora dos parâmetros normais de funcionamento.
Imagine-se o que isso poupará de acidentes e de mortes, em relação às aeronaves. Monitoramento exato permitirá detectar falhas e proceder aos reparos necessários ou à eventual substituição da peça defeituosa.
Abre-se um potencial enorme de diversificação de negócios, de melhor aproveitamento do material, de economia e de racionalidade, mas isso é próprio de países que passaram por guerras, que sabem o valor das coisas e que não foram abençoados com um solo fértil, “no qual em se plantando tudo dá”. Em países deste último tipo, prepondera o desperdício, a cultura do descarte, a falta de interesse em sair da pobreza material, que
só é inferior à indigência moral de grande parcela dos que se dedicam à política.

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

FOTO:ILUSTRATIVA
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