ARTIGO ESPECIAL "Histórias de Taquarituba: O ASSASSINATO DO DELEGADO"

  •  51 ANOS ATRÁS o mais famoso caso policial de Taquarituba. Foi na manhã de 5 de dezembro de 1969 que o delegado de polícia da cidade e sua mulher (que estava grávida), foram assassinados pelo conhecido Zezinho da Onória. O caso teve muita repercussão e, na época, o autor desse tipo de crime era punido pelo Esquadrão da Morte. Toda essa história é contada por Correinha, policial, matador e líder do Esquadrão, enviado até Taquarituba com a missão de caçar o criminoso.  Quem se lembra desse episódio em Taquarituba ?

05 de Dezembro, primavera de 1.969. 

A polícia paulista havia passado por grandes modificações administrativas. 

O Dr. Rubens A. Liberatori havia assumido a Diretoria do Departamento de Investigações (D.I.). A rotina do setor de Roubo a Bancos estava me desgastando, física e emocionalmente. Assim, solicitei, por escrito, minha transferência para a RUDI, setor pelo qual nutri sempre um carinho especial, em virtude da filosofia moderna de fazer polícia que ali sempre foi praticada. Meu requerimento foi deferido. Assumi meu cargo em meados de Novembro de 1969, na equipe A, para chefiar a RUDI-3. O delegado chefe, Dr. Cláudio Gobetti, havia vindo do interior e demonstrou seu amor pela carreira, desempenhando suas funções com competência, coragem e, sobretudo, com a correção que sempre pautou sua vida e sua carreira. Um amigo até hoje. As canções e o espírito no Natal já estavam no ar, tocando com ternura o coração das pessoas. No rosto da maioria podia-se notar expressões mais amenas, um ar de alegre expectativa nos semblantes, como se quase todos aguardassem os dias festivos e felizes que estavam por vir. Entretanto, na distante Taquarituba, cidade localizada na divisa do Estado do Paraná, o Delegado de Polícia, Dr. José Vieira das Neves e sua esposa, Sra. Maria Pierre Vieira e a criança que trazia em seu ventre, não estariam vivos para festejar a noite sagrada Foram assassinados na manhã do dia 05/12/69. 

Um tiro. Três vidas brutalmente interrompidas pelas mãos de um bandido frio e covarde, que já havia assassinado o próprio pai. Nesse dia, uma sexta-feira, me encontrava em casa. Havia trabalhado à noite. Estava dormindo, quando fui acordado. Alguém à porta estava à minha procura. Levantei-me, abri a janela e pude ver um Opala preto e seu motorista. Chamei-lhe a atenção e pedi que aguardasse. Tomei um banho rápido, me vesti e fui saber do que se tratava. O funcionário do Gabinete do Secretário não pôde me adiantar nada. Fora incumbido apenas de ir até minha residência e levar-me, o mais rápido possível, até ao prédio da Secretaria, a mando do Sr. Secretário. Entrei para apanhar uma blusa e olhei para o relógio na parede, marcava 9:30 h. 

Chegamos ao prédio da Rua Brigadeiro Tobias, por volta das 10:00 h. No 10° andar do edifício, uma vez no Gabinete, fui anunciado. Após alguns minutos a porta se abriu e quem surgiu foi o Dr. Rubens Liberatori. Sorrindo, me cumprimentou e juntos nos dirigimos à mesa onde estava o Sr. Secretário. Ele foi incisivo: “Como está Correinha? Tudo bem?”. Respondi que sim. Em seguida ele foi ao ponto: “O problema que temos hoje é de suma gravidade. O Delegado de Taquarituba e sua esposa, grávida, foram assassinados hoje de manhã, por volta das 7:00 horas. 

Mandei buscá-lo por recomendação do Dr. Rubens. Quero que você e sua equipe da RUDI se dirijam a Taquarituba e tragam esse bandido vivo ou morto!”. Respondi-lhe que faria o melhor que pudesse.

Em seguida, os inquiri sobre os recursos que tal operação exigia. O Dr. Rubens respondeu: “Correinha, já tomei todas as providências. O pessoal de sua equipe já está sendo trazido para cá. Sua viatura já está abastecida e revisada, um motorista da garagem já a esta conduzindo até a porta do Departamento. Vamos descer e lhe darei o dinheiro necessário e o armeiro de plantão lhe fornecerá as armas. Despedi-me do Sr. Secretário que desejou-me boa sorte. Desci para o 5° andar em companhia do Dr. Liberatori. Ali concluímos os últimos ajustes, após o que, com minha equipe, encetamos viagem. Ao entardecer, quando já nos encontrávamos a mais ou menos 40 quilômetros de Taquarituba, cruzamos com o cortejo fúnebre; dois carros conduziam as vítimas para Santos, de onde eram oriundos, para ali serem sepultados. Um mal estar tomou conta de todos nós ante aquela visão funesta. Entretanto, serviu para nos despertar o espírito de luta de que deveríamos estar imbuídos para levar a bom termo a missão que nos fora confiada Sabíamos dos riscos que iríamos correr, pois estaríamos lidando com um indivíduo da pior espécie e conhecedor do terreno. Já levava, por isso, alguma vantagem. O tempo decorrido também o favorecia, caso optasse por fugir para longe.

Ao chegarmos à cidade, inquirimos alguns transeuntes sobre a localização da Delegacia de Polícia. Informados, para lá nos dirigimos. Fiquei espantado com a quantidade de pessoas que se aglomerava diante do prédio. Em sua maioria, jovens. Alunos do Colégio Estadual onde a professora Maria Pierre Vieira lecionava. Com alguma dificuldade, conseguimos encostar a viatura à porta. À nossa chegada, a multidão nos aplaudiu, fomos cumprimentados por um grande número de pessoas que, em uníssono, clamavam por justiça. Pedi aos membros de minha equipe que aguardassem na entrada do edifício. Entrei na Delegacia. Havia poucos policiais. Perguntei a um deles sobre a presença ou não de alguma autoridade que estivesse respondendo pelo expediente. A pessoa à minha frente identificou-se como sendo o Escrivão de Polícia. Cumprimentou-me com cortesia e, em seguida, conduziu-me à sala onde se encontrava o Delegado substituto, recém chegado de uma cidade vizinha. Não costumo julgar ninguém pela aparência, entretanto a figura que me foi apresentada podia parecer qualquer coisa, menos um policial de carreira. Enfiado meio corpo dentro da mesa, sem postura, quase deitado na cadeira, óculos de grau com armação preta, obeso. Era a própria expressão do desânimo. Percebi de pronto, que não poderia contar com ele para nada. Além de tudo, estava assustado, como se Zé da Nória fosse entrar pela porta a qualquer momento e fuzilá-lo, como fizera com seu colega. Nos cumprimentamos friamente. Perguntei sobre o andamento das investigações. Respondeu-me que nada sabia a respeito, por haver chegado à cidade instantes antes. Perguntei, ainda, se tinha algum plano de trabalho. Informou-me que não, uma vez que os policiais daquela Delegacia estavam empenhados na busca do assassino, e que não tivera oportunidade de conversar com nenhum deles. Insisti, indagando ainda se havia disponível alguma foto do bandido. A resposta foi também negativa. Não havia mais nada a fazer ali.

A partir daquele momento, senti que o serviço teria que começar da estaca zero. A situação não era nova. Já havia passado por isso antes. Despedi-me do Delegado, não sem antes deixá-lo ciente de que estaríamos fazendo nosso trabalho em sua jurisdição. Ao sair em companhia do Escrivão, este me pediu alguns minutos de atenção e narrou-me a seguinte história:

“Correinha, o Dr. José morreu por culpa dele mesmo!”. Não entendi inicialmente a colocação do velho escriba. Pedi que continuasse para melhor esclarecer sua assertiva. Ele prosseguiu: “Há uns oito ou nove meses passados, o Zé da Nória estava em um parque de diversões, aqui temporariamente instalado. E na barraca de tiro ao alvo, tentava, sem sucesso, ganhar algum dos muitos prêmios oferecidos aos que conseguissem acertar o alvo um determinado número de vezes. A arma usada era uma espingarda de ar comprimido. Após inúmeras tentativas inúteis, irritado, ele sacou sua arma, um revólver de cano longo, e o descarregou em direção ao alvo. Houve pânico e correria no parque. Nesse momento, os dois policiais militares que haviam sido destacados para proceder ali o policiamento preventivo foram avisados pelos freqüentadores aterrorizados. Incontinenti acorreram ao local para deter e desarmar o transgressor. Este, por sua vez, estava tentando municiar sua arma para um confronto armado. Não teve tempo. Impossibilitado de usar o revólver, partiu como um animal selvagem para cima dos agentes da lei, com os quais entrou em violenta luta corporal. Feriu e foi ferido. Nada grave, escoriações de ambos os lados. Finalmente dominado, foi desarmado, algemado e conduzido à Delegacia para ser autuado em flagrante delito, por periclitação de vida, lesões corporais, desacato e resistência. Como você sabe, em Delegacias do interior não há plantão. Eu fui avisado em minha casa pelo comandante do destacamento e, em seguida, dirigi-me à casa do Dr. José e juntos fomos tomar conhecimento dos fatos e dar andamento às providências cabíveis. Após ouvir os soldados e algumas testemunhas, o Dr. José mandou que tirassem as algemas do suposto indiciado, e o conduziu à sua sala, cuja porta foi fechada. Permaneceram lá por alguns minutos. Ao saírem, a surpresa: o Delegado mandou-me confeccionar uma requisição de exame de corpo de delito para Zé da Nória, dispensou as testemunhas e mandou-me, ainda, lavrar uma portaria para início de um Inquérito Policial, no qual os policiais militares seriam os indiciados por agressão e abuso de poder. Entretanto, a surpresa maior ainda estaria por vir. Na volta do exame, Zé da Nória teve seu revólver devolvido, (o mesmo revólver com o qual o Dr. José foi assassinado), e em seguida foi dispensado, como se nada tivesse praticado de errado. Como se tudo não bastasse, ao sair, o delinqüente ainda escarneceu os dois policiais, com descarado cinismo. Todos ali presentes ficaram tomados de enorme revolta pela flagrante injustiça praticada pelo Dr. José, um ferrenho defensor dos direitos humanos. No momento em que ocorreu o crime, o assassino estava em frente à casa do Juiz de Direito, com o objetivo de matá-lo. O motivo de tal atitude foi a negativa da autoridade de permitir o namoro entre Zé da Nória com sua filha, que também já havia rejeitado as investidas amorosas do bandido. S. Excelência, ao perceber a presença daquele indivíduo, sentiu-se ameaçado e ligou para o Delegado solicitando providências. O Dr. José estava de saída para levar a esposa ao Colégio onde a mesma lecionava, e ao telefone tranqüilizou o Juiz, dizendo que chegaria em minutos ao local para resolver o problema. Ciente de que seu protegido, para o qual havia sido paternal em nome dos “direitos humanos”, o atenderia sem maiores problemas, quando encostou o carro chamou o marginal para que se aproximasse e, em seguida, disse ao mesmo para sair dali e ir para casa. A resposta foi imediata: “quem vai sair daqui é você!” Incontinenti, atirou, ceifando três vidas inocentes, fugindo em seguida. Achei que você devia saber disso, concluiu o escrivão”.

Ouvi tudo em silêncio. Não externei minha opinião pessoal em respeito ao que, de qualquer forma, havia perdido seus dois bens mais preciosos: a vida e a família. Mas confesso que perdi bastante do entusiasmo inicial. Não obstante tais fatos, um profissional não pode deixar-se envolver por sentimentos pessoais que possam prejudicar seu desempenho. O trabalho deveria ser levado a bom termo. Para isso estava ali. Independente das circunstâncias, um crime hediondo e covarde havia sido cometido e cabia a mim efetuar a cobrança em nome da sociedade local, que lá fora bradava por justiça, e da instituição que fora flagrantemente desrespeitada.

Atônito com tal informação, e com as emoções se atropelando dentro de mim, dirigi-me para frente do prédio, subi no muro, solicitei a atenção de todos, e pedi ajuda: “Se houver alguém dentre vocês que conheça o assassino, que saiba onde residem todos os seus parentes na zona rural, peço que se apresente. Sei que não é um pedido simples, mas sem essa colaboração o meu trabalho ficará muito mais difícil”. A multidão quedou-se em absoluto silêncio, até que um jovem de uns 16 anos de idade adiantou-se, com o braço erguido, e falou: “Eu conheço tudo! E vou ajudar o senhor”. Foi aplaudido por todos. A grande busca enfim teria início. Parabenizei o rapaz por sua coragem, disposição e desprendimento. Pedi para que entrasse na viatura e, quando já íamos partir, um carro do jornal “O Estado de São Paulo”, estacionou nas proximidades. Dele saltou o jornalista Percival de Souza. Desci da viatura, nos cumprimentamos, e ele externou o desejo de fazer parte da diligência. Concordei com o seu pedido, entretanto o seu fotógrafo não poderia vir junto; não havia mais lugar. Percival solicitou ao fotógrafo que lhe passasse a mochila com o material fotográfico. Ele mesmo documentaria os fatos que viessem a ocorrer. Assim, partimos rumo ao desconhecido. Naquele momento, meu espírito recolheu-se para uma prece sublime. Pedi a Deus a proteção necessária para que tudo terminasse bem, para que os que se encontravam dentro daquela viatura tivessem sua integridade física preservada, e ainda para que a justiça fosse feita, justa e imparcial, para o lado que a merecesse. Em seguida, passei mentalmente, os rostos das pessoas que amo. Despedi-me de cada uma com pensamentos de ternura e enviei-lhes beijos de carinho. Por me conhecer muito bem. sabia que, o que quer que viesse a ocorrer, eu não recuaria um passo sequer. Pelo contrário, caminharia sempre para frente!

 

“Eu e você iremos nos encontrar. E então a justiça, a verdadeira justiça, será feita”.

 

Discutimos um plano de trabalho. Chegamos à conclusão de que precisávamos de uma foto do criminoso. Era preciso conhecer seu rosto, sem o que o nosso objetivo ficaria mais difícil de ser alcançado. O nosso jovem voluntário manifestou-se dizendo que nos levaria à residência de “Zé da Nória”, onde por certo encontraríamos uma fotografia do mesmo.

Abro aqui uma dicotomia. Presto assim uma homenagem e um preito de gratidão a esse rapaz, um pequeno herói que colocava sua vida em risco sem nada receber em troca. Não sei seu nome. Mas onde estiver, quero que saiba que nunca foi esquecido.

Chegamos à residência procurada. Bati à porta e fui atendido por uma senhora já idosa. Em seu rosto, as marcas da dor e da tragédia eram visíveis. Ao ver a viatura policial, ela foi logo dizendo que seu filho não se encontrava. Diante daquela mãe, abatida pelo sofrimento, fiquei constrangido. Entretanto, cumprimentei-a com o respeito devido, identifiquei-me como policial e esclareci-lhe o motivo de estar ali. Ela me pediu que aguardasse um momento, dirigiu-se ao interior da casa, e após alguns minutos retomou com uma foto 3x4 do filho e, ao me entregar, disse: “Essa é a mais recente que eu tenho”. Como adjetivar o gesto dessa mãe? Cito a seguir, um pensamento de J. M. Vargas Villa, que quem sabe, possa nos esclarecer:

 

“Solo en la vida espiritual hay grandeza...
Porque solo en la vida espiritual
hay consciência;
Consciência del próprio dolor... y del dolor de los otros”.

 

Ao despedir-me dessa senhora envolta pela tristeza, agradeci-lhe pelo ato de grandeza. Entretanto, ao retirar-me, veio a pergunta que, embora esperada, eu não gostaria de responder: “Senhor, vocês vão matar o meu filho?”.

O que responder a uma mãe naquelas circunstâncias? Pensei antes de responder-lhe. Não poderia me valer de eufemismos. A realidade era sabida por mim e por ela. Com cuidado, disse-lhe que nosso objetivo era prendê-lo vivo. Se ele se entregasse sem resistência, seria preso como qualquer outro delinqüente para ser legalmente julgado por um Tribunal; caso contrário, não sabia o que poderia acontecer. Ela ouviu sem dizer nada. Ao me retirar, notei grossas lágrimas a escorrer-lhe pela face, retrato vivo da dor e do desespero. Nunca mais esqueci aquela expressão de angústia e medo. Lamentei em silêncio e com respeito aquele momento vivido por um coração materno, despedaçado pela incerteza do destino do filho querido, apesar de tudo.

Saímos dali. Na viatura, todos emudeceram. Por vários minutos ninguém disse uma palavra. Aquele encontro comoveu nossos espíritos e mexeu profundamente com os nossos sentimentos.

 

“Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás” — E. G.

 

Por ser a foto muito pequena, procuramos um fotógrafo local, para que nos fizesse uma ampliação. Encontramos uma loja, cujo dono, um nissei, prontificou-se em atender nossa solicitação. Demorou uma eternidade até que as ampliações ficassem prontas. As fotos ainda estavam úmidas. Paguei pelo serviço, apanhei a nota fiscal e nos retiramos rumo à Delegacia onde deixei a maior parte das cópias, para que outras equipes, que estavam vindo de São Paulo, as pudessem utilizar.

Finalmente saímos em busca do nosso objetivo: encontrar o assassino. Foi nesse momento, que não sei exatamente porque, veio à minha mente a lembrança da leitura de um livro, de autoria do cientista russo Pavlov. Essa obra versava sobre o comportamento de cães submetidos a um experimento que os condicionava a reagir a determinados estímulos. E num dos parágrafos, onde se descrevia também o comportamento de ratos com os quais a mesma experiência foi realizada com algumas variantes, ele afirmava que o ser humano, em determinadas circunstâncias, reagia, instintivamente, da mesma forma que os roedores quando ameaçados por algum perigo eminente. Ou seja, buscavam se esconder na toca que estivesse mais próxima. Com esse raciocínio, perguntei ao nosso jovem guia qual o parente do bandido residente mais perto da cidade, Ele nos disse que a mais ou menos três quilômetros, já na zona rural, em uma pequena chácara, residia um tio de Zé da Nória. Pedi, então, que nos indicasse o caminho e para lá nos dirigimos. Durante o trajeto, fomos conversando sobre amenidades, para desfazer um pouco a tensão natural existente. A estrada de terra se encontrava em péssimo estado de conservação. Chegamos ao sítio. Pedi ao nosso condutor, o Ticão, que parasse longe da residência, de forma que quem lá estivesse não pudesse avistar a viatura policial. Determinei à minha equipe que apanhassem as armas e em leque, por dentro da plantação de milho, seguissem até as proximidades da casa e efetuassem um cerco para evitar uma fuga, caso o marginal ali se encontrasse. Enquanto isso dirigi-me ao domicílio. A porta estava fechada. O crepúsculo já se fazia presente e o lusco-fusco dificultava uma melhor visão. Bati à porta, e fui atendido por um senhor já em idade avançada. Identifiquei-me como policial e perguntei sobre o seu sobrinho. Respondeu-me que não sabia e que não o havia visto naquele dia, não obstante tivesse sabido dos atos que o mesmo havia praticado. Barbárie para a qual nem mesmo uma critica ou reprovação proferiu. Entretanto, observei sua expressão facial e sua forma de olhar e também o seu comportamento de forma geral. Não notei qualquer emoção que identificasse surpresa, ou desaprovação das façanhas do sobrinho assassino. Havia, sim, uma certa ansiedade em livrar-se de nossa presença o mais rápido possível, quando notou que a casa já estava cercada. Pedi-lhe licença e fiz uma detida revista no imóvel. Nada foi encontrado. Não nos restou outra alternativa senão nos retirarmos e prosseguir com a busca em outras paragens.

Nos retiramos do local com um sentimento de frustração. Apesar da noite já ter ocupado seu espaço concedido pelo tempo, o nosso entusiasmo não arrefeceu. Prosseguimos envoltos pela escuridão. Onde há trevas, por certo, em algum momento, surgirá a luz. Assertiva válida para os retos de espírito. Enquanto a viatura da RUDI rodava velozmente rumo a outro local indicado pelo nosso “cicerone”, dentro de mim um sentimento estranho incomodava. O comportamento daquele senhor, cuja casa acabávamos de deixar, seu nervosismo, sua ansiedade, ocultavam alguma coisa. Não fiquei convencido de sua sinceridade e nem da veracidade das poucas respostas que dera. Não disse nada a ninguém. Guardei comigo essas impressões. A teoria da ciência teria falhado na prática?

Visitamos mais de uma dezena de propriedades na zona rural daquele Município. Sem sucesso. A madrugada ia já avançada. O frio era cortante. A fome, o frio e a sede já se faziam sentir em todos nós. Nosso jovem guia nos informou que faltava apenas uma propriedade de um tio do assassino para ser visitada. Era a maior de todas e o proprietário era o mais rico entre os parentes já visitados. Além do que tinha a fama de valentão, fama alcançada por brigas e bravatas, fatos que eram contados pelos habitantes daquele Município, onde a figura do mesmo se tomara folclórica. Passamos por uma grande porteira e divisamos a silhueta de uma grande casa. Deveria ser a sede da fazenda. Mandei que parasse a viatura e pedi a todos que me aguardassem. Caminhei em direção àquela enorme residência, que naquelas circunstâncias apresentava um aspecto fantasmagórico. O silêncio, absoluto. Nem insetos ou animais de hábitos noturnos eram ouvidos. A baixa temperatura os fez calar. Após andar quase um quilômetro, ouvi vozes abafadas vindas de um galpão anexo à casa. Ao chegar mais perto, com as cautelas devidas, notei que pelas frestas daquela construção de madeira passavam tênues feixes de luz. Acerquei-me mais; movimentava-me como uma sombra; as caçadas noturnas realizadas nas florestas durante a já longínqua infância, mais os anos de prática de artes marciais, naquele momento foram de grande valia e utilidade. Encostei nas tábuas de madeira e olhei por uma das pequenas aberturas horizontais existentes entre uma e outra. A visão foi surpreendente. Havia mais ou menos quinze homens à volta de uma grande bacia em cujo interior ardia uma fogueira que aquecia e iluminava o ambiente. O fato insólito, àquela hora avançada da madrugada acrescido ainda ao tipo de trajes que usavam, botas, goiacas, blusas de couro, chapéus de aba larga e, na cintura de dois deles, revólveres, enquanto outros portavam grandes facões, me deram ao espírito a certeza quase absoluta de que Zé da Nória ali se encontrava, sob a proteção de parentes, prontos para qualquer natureza de ação que visasse proteger o sobrinho assassino. Não conseguia ver seus rostos com nitidez suficiente que permitisse uma identificação segura. Assim, retirei-me da mesma forma que havia me aproximado: em silêncio.

Durante o trajeto até a viatura, levava comigo a convicção de que o grande momento havia chegado. A parada iria ser decidida naquele local. E as expectativas eram as mais sombrias. Um fato que me chamou a atenção e que achei estranho, foi a ausência de cães no local. Pois em todas as outras propriedades tivemos problemas com esses animais. Essa circunstância seria mais tarde esclarecida Ao chegar junto aos meus companheiros, fiz um rápido relato do que havia visto e, rapidamente, formulei um plano de ação, deixando bem clara a forma de aproximação e o que cada um deveria fazer. Sugeri que o nosso guia e o jornalista Percival aguardassem no veículo, já que as probabilidades de um acirrado combate eram de 90%. O jovem concordou. O jornalista não. Queria ver de perto o que iria ocorrer. Adverti-o que não poderia, naquelas circunstâncias, dar-lhe a proteção devida e que a responsabilidade da decisão era inteiramente sua. Ele reafirmou sua posição. Orientei-o para que, em caso de tiroteio, imediatamente se deitasse rente ao chão, o que diminuiria, em muito, a possibilidade de ser atingido por uma bala perdida. Assim, iniciamos a operação. A porta seria derrubada por mim, numa ação rápida e decidida. Ticão viria logo atrás, para me dar a cobertura necessária. Os outros dois membros da equipe se postariam um à esquerda e o outro à direita, numa posição que lhes permitisse atirar para dentro do galpão, num ângulo em que nem eu e nem Ticão pudéssemos ser atingidos no fogo cruzado que se estabeleceria em caso de reação.

 

“A morte é muito incômoda de madrugada.
Sei que teve medo, mas sei que não foi covarde”.
Texto extraído de um poema em homenagem a Garcia Lorca

 

Nessa disposição fomos nos aproximando da edificação. Quando cheguei a uns dez metros da porta, iniciei uma arremetida; nas mãos, duas armas curtas. Um revólver calibre 38 na direita e uma colt, calibre 45, na esquerda. Um pontapé dado com violência e a porta caiu. Em seguida, disparei a colt para o alto e gritei: “Polícia, a casa está cercada! Mãos para cima! Vão encostando na parede!” Ato contínuo, desarmei os dois homens que portavam armas de fogo. Os outros policiais entraram. Desarmamos todos. Não houve reação. A situação estava sob controle. Perguntei se Zé da Nória estava entre eles. Alguns responderam que não. Indaguei quem era o dono da propriedade. Um dos homens se adiantou e identificou-se como tal. Iniciei com ele um diálogo. Minha primeira pergunta foi no sentido de saber se algum deles conhecia o paradeiro do assassino. A resposta foi negativa. Explicou-me então o fazendeiro que aquela reunião estava acontecendo porque a família, assim que o dia amanhecesse, iria sair à procura do sobrinho, para, se possível, encontrá-lo e entregá-lo vivo à Polícia. Eram todos agricultores. Gente que trabalhava duro sol a sol. Não eram pessoas de mau caráter. Passado o susto inicial de ambos os lados, pudemos manter uma conversa amigável de esclarecimentos. Foi-nos oferecido café e pão feito em casa, o que foi muito bem vindo. Quanto às armas de fogo apreendidas, seus portadores exibiram os respectivos portes, dentro da data de validade. As armas foram desmuniciadas e devolvidas aos seus donos. Devolvemos também as armas brancas que, segundo explicaram, eram usadas apenas nas lidas diárias.

Antes de sair perguntei qual o valor da porta danificada e informei-os que poderiam reclamar na Delegacia local que seriam ressarcidos. O proprietário respondeu que o conserto seria simples de ser feito e que não seria necessário pagar, pois entendeu o caráter da operação. Nos despedimos em clima amistoso. O pior havia passado. A sombria expectativa não se realizara, felizmente. De volta à viatura, mais relaxados, discutimos o próximo passo. Nosso bem informado guia nos disse que, na vizinha cidade de Pedro de Toledo, havia uma zona de meretrício, e que, segundo boatos correntes na cidade, Zé da Nória mantinha ali uma amante de nome Rita, que poderia, naquela situação, acoitar o bandido.

Isso dito, nos dirigimos para lá. Não era distante. Chegamos ao aglomerado de prostíbulos ainda escuro. Deixei um homem postado no início da rua (única), e descemos rapidamente até o seu final, onde deixei outro membro da equipe, para evitar uma possível fuga. Iniciamos uma minuciosa revista, casa a casa, quarto a quarto. As cenas vividas durante esse trabalho foram, em alguns momentos, hilariantes. Entretanto, por seu caráter de moral duvidoso, deixo que cada leitor as imagine da forma que melhor lhe convier. Não conseguimos identificar Rita e nem encontrar seu amante. Nesses ambientes, impera a lei do silêncio.

Tínhamos exaurido todas as nossas possibilidades; mas o bem e a justiça traçam seus desígnios por caminhos iluminados por divina luz. Lembrei-me de Pavlov e do comportamento do idoso na primeira visita que tínhamos feito. Decidi que deveríamos voltar para lá o mais rápido possível. Era minha última esperança e, se falhasse, deveríamos iniciar uma nova linha de investigação. Chegamos ao sítio e nos dirigimos diretamente à casa. Instrui um dos membros da equipe a falar com as crianças em separado. Criança não mente. Enquanto isso, eu interrogaria o tio do assassino de forma mais dura. Eram 8:00 horas da manhã. A estratégia funcionou. O velho, ameaçado de ser preso por esconder um criminoso, confessou assustado que o sobrinho estava dormindo no paiol, e que se encontrava na propriedade desde o dia anterior. Outros policiais já haviam passado por ali e ele os ludibriara. Corri para o local indicado. A porta estava somente encostada, adentrei o celeiro de arma em punho. Não havia ninguém em seu interior. Mas, uma reentrância no milho ali depositado, ainda em casca, indicava com certeza que alguém havia dormido no local. Coloquei uma das mãos nas espigas, e elas ainda estavam quentes, calor gerado pelo corpo do delinqüente, que havia fugido quando percebeu nossa chegada. Havíamos perdido o bandido por minutos. Sai e sobre a relva onde ainda estava depositado o sereno da noite percebia-se claramente as pegadas do fugitivo que se dirigia para um riacho existente na divisa do sítio. As crianças também haviam confirmado a presença do primo. A caçada agora se processaria a pé e por dentro de uma floresta. Seguimos a pista até ao rio. Ele o havia atravessado. Fizemos o mesmo. Prosseguindo pelos seus rastros, saímos do mato e atravessamos um pasto até chegar na moradia dos proprietários daquele imóvel rural. Uma mulher que fazia a ordenha, quando nos avistou, veio correndo, assustada, nos informando que o marginal a ameaçara com uma arma e exigiu que ela lhe desse leite para beber. Após tomar o leite, o bandido havia, apressadamente, se embrenhado num matagal existente nas proximidades. E nos indicou a direção tomada pelo mesmo. Seus rastros eram claros e fáceis de seguir. Eu estava em meu habitat natural. Criado em zona rural, aprendera, desde muito cedo, a seguir qualquer tipo de marca em qualquer terreno. O capão de floresta, por ser pequeno, foi logo ultrapassado e saímos novamente num pasto. Havia uma cerca de arame farpado à direita, após a qual a vegetação era composta por um cerrado (uma capoeira). E a pista nos conduzia naquela direção. Ao me preparar para atravessar a cerca, a surpresa: Zé da Nória saiu de trás de um arbusto, de arma em punho, me encarando ferozmente e me disse: “Atira bem, senão eu te janto”!. E, incontinenti, disparou três tiros. O meu companheiro, que estava à minha esquerda, se jogou dentro de uma vala junto à cerca para se proteger dos disparos. Após os três estampidos, fiz uso de minha Winchester 44. O tiro o atingiu no lado esquerdo do rosto. Entretanto, devido ao ângulo da trajetória do projétil, a bala bateu em seu osso facial malar e desviou-se. Mas o impacto violento da 44 o jogou de costas. Pensei que estava gravemente ferido. Ledo engano. Ato contínuo, o bandido se levantou com a arma em punho. Não teve tempo de usá-la novamente. De dentro da vala meu companheiro disparou uma calibre 12, mas, por ser um cartucho carregado com chumbo 30, que se espalha muito em tiros dados à distância, derrubou mais uma vez o marginal, mas não o feriu gravemente. Ele tornou a levantar-se. Dessa vez, Ticão, que estava à minha direita, disparou sua calibre 12, municiada com balote, e o projétil o atingiu na garganta, abaixo do maxilar, mas só rasgou a pele, um ferimento superficial e ele caiu novamente.

Enquanto ocorria essa ação, eu atravessei a cerca e me aproximei do bandido que, atordoado, engatinhava com avidez rumo à sua arma que estava no chão, já ao alcance de sua mão. Não tive alternativa. Saquei a Colt 45 e fiz apenas um disparo que o atingiu no alto da cabeça. Dessa vez, caiu para não mais se levantar. Estava morto! Cessado o tiroteio, fez-se um silêncio sepulcral. A morte de um ser humano é sempre um fato anômalo. Apesar do sucesso da missão, não havia o que comemorar naquele momento. Apenas a satisfação de estarmos todos vivos e sem nenhum ferimento. Uma outra viatura da RUDI havia chegado de São Paulo durante a noite. Nela, o Delegado Cláudio Gobetti se encontrava. Chamei-o pelo rádio, dei conta de nossa localização e do ocorrido. Solicitei que trouxesse um Escrivão de Polícia e um perito para as providências de praxe, e posterior remoção do corpo. Providências que foram imediatamente tomadas. Quando retomamos a Taquarituba uma multidão, muito maior, se aglomerara em frente à Delegacia. Fui aplaudido e cumprimentado. Chegaram até, alguns estudantes, a me pedir autógrafo. Uma vez na Delegacia, foram tomadas todas as outras providências legais, com a presença do Juiz de Direito da Comarca e este, após as formalidades de praxe, despachou naqueles autos, no sentido de que fossem ali mesmo arquivados. Entretanto, insurgi-me contra tal decisão, pois, sem a aquiescência do representante do Ministério Público, aquele r. Despacho não teria o poder legal de impedir um processo posterior. Isso dito por mim, trouxe todos de volta à realidade. A euforia reinante deu lugar à razão. Trouxeram para a Delegacia o jovem Promotor da cidade que, a pedido do Juiz, apôs o seu “de acordo” e assinou o termo. Eu disse aos presentes: “agora, podemos comemorar!”.

Para encerrar este episódio, transcrevo algumas manchetes publicadas nos jornais da capital no dia seguinte:

 

“DIÁRIO DA NOITE” 06/12/1969

“MORTO O ASSASSINO DO DELEGADO”

 

“Zézinho da Nória, o matador do Delegado de Taquarituba, José Vieira das Neves e de sua esposa, Maria Pierre Vieira, foi morto ontem em rápido entrevero com a polícia, depois de uma caçada que mobilizou grandes efetivos. Zézinho ainda fez fogo com seu 32 cano longo, reagindo à voz de prisão antes de morrer. Assim acabou sua carreira criminosa iniciada com a morte do próprio pai”.

 

“A GAZETA” 06/12/1969

“FUZILADO O ASSASSINO DO DELEGADO”

 

“Está vingada a morte do Delegado de Taquarituba e de sua esposa, assassinados friamente pelo bandido José Aleixo da Silva, o “Zé da Nória”. Agentes da RUDI, durante intensa caçada ao criminoso, conseguiram localizá-lo num sítio daquela cidade, de propriedade do seu tio. “Zé da Nória” ainda chegou a fazer uso de seu revólver disparando contra os policiais. Tombou morto com vários tiros”.

 

“JORNAL DA TARDE” 06/12/1969

 

“Na mão do bandido, um revólver. Na cinta, um punhal e um chaveiro em forma de revólver”. “Quem não vai ficar aqui é você e atirou”. (Palavras de Zé da Nória, para o policial assassinado antes de atirar, segundo testemunhas).

 

“JORNAL DA TARDE” 06/12/1969

 

“CUMPRO O DEVER DE COMUNICAR QUE ACABA DE SER MORTO PELA RUDI EM TIROTEIO NAS MATAS DE TAQUARITUBA, A 420 QUILÔMETROS DE SÃO PAULO, O INDIVÍDUO JOSÉ ALEIXO DA SILVA, VULGO ZÉZINHO DA NÓRIA, QUE ONTEM ASSASSINOU NOSSO COLEGA JOSÉ VIEIRA DAS NEVES E SUA ESPOSA. O CRIMINOSO SE HOMIZIARA NAS MATAS ONDE ESTAVA CERCADO DESDE AS PRIMEIRAS HORAS DE HOJE. DEPOIS DE MANTER CERRADO TIROTEIO COM OS COMPONENTES DA RUDI-3, FOI ATINGIDO POR VÁRIOS DISPAROS.”

Mensagem enviada pelo Diretor do DEIC, Dr. Rubens Liberatori a todas as Delegacias da Capital e do Interior.

 

Considerações Finais

 

As manchetes dos órgãos de comunicação mostram apenas o resultado final de uma operação dessa natureza. Poucos contam a história completa de nossas dificuldades, medos, sustos, suor e cansaço. Este foi mais um episódio em minha atribulada existência. Mais um drama violento em minha carreira que foi, por motivos pessoais e políticos, brutal e injustamente interrompida. Nos anos 60, existiam mais de 4.000 Investigadores de polícia nos quadros da Secretária de Segurança Pública. Inesperadamente, ocorre um fato delituoso em pequena cidade do interior, distante da capital mais de 400 quilômetros e eu me pergunto: Porque eu? Fui convocado por ordens superiores, sem levar em conta a noite de trabalho extenuante pela qual havia passado. Estava no limite de minhas forças física e psicológica. Ainda assim, não podia deixar de atender a uma ordem superior. Nunca recebi um centavo à guisa de horas extras. Dentro da estrutura organizacional da Polícia, a RUDI e seus componentes nada tinham a ver com o fato delituoso (homicídio), ocorrido em local tão distante. Cabia à Delegacia Especializada de Homicídios do DEIC, por ser um caso especial, proceder ao trabalho de investigação e prisão do assassino. Sou humano. Estava física e emocionalmente esgotado. Tive que haurir as forças do espírito para me animar e dar andamento àquela difícil missão que me foi honrosamente confiada E o fiz, pensando na Instituição desrespeitada, na figura de um Delegado a ela pertencente, covardemente eliminado. Não importando se tratar de uma autoridade sem muitos méritos profissionais. Havia, como já foi narrado, prevaricado no exercício de suas funções. E quanto a mérito pessoal, também deixava muito a desejar, quando praticou a injustiça de indiciar dois profissionais de Polícia que haviam simplesmente cumprido seus deveres, agindo dentro da lei e colocado em risco suas próprias vidas. Se tivesse tomado as providências legais cabíveis no episódio do parque de diversões, usando o bom senso, a lei, o direito e a justiça, talvez, quem sabe, não teria sido morto da forma que foi e por quem foi.

Um policial é, antes de mais nada, uma pessoa comum, como tantas outras. Assim sendo, ao tirar a vida de um ser humano, não importando quem seja, ou o que tenha praticado, mesmo agindo em legítima defesa e estrito cumprimento do dever legal, abre-se em seu coração uma ferida dolorosa que irá sangrar para sempre. E, em seu espírito, passa a residir uma ponta de tristeza, que creio será eterna. É um preço muito alto que se paga para cumprir uma obrigação profissional. Hoje, eu sinto que fui usado pelo sistema. Sistema que se aproveita de sua coragem, do seu preparo, de sua valentia e espírito de luta, acrescendo ainda o alto risco de vida a que se é exposto, sem nada lhe oferecer em troca, a não ser um mísero salário. Vitórias dessa natureza podem dar ao policial uma sensação de sucesso e realização profissional. Entretanto, não há nenhuma alegria nisso. E as glórias que se lhe auferem, com elogios e outras badalações, são efêmeras e não levam a nada, não acrescentam nada de útil ao seu aprendizado ou à sua ascensão espiritual. Não obstante isso tudo, o estrago feito em sua alma é seqüela que jamais será sanada. Seu espírito levará consigo, para onde for, esse estigma de dor e de sofrimento. E nada é reconhecido por ninguém, a não ser naquele passageiro e rápido momento. Quando o infortúnio e o abandono vierem bater à sua porta, como aconteceu comigo, nenhuma mão se estendeu para uma ajuda, nenhuma palavra de consolo ou de ternura na verdade. Você foi apenas mais um dente da engrenagem do sistema que se quebrou e foi substituído, pura e simplesmente. Seu passado, o sangue derramado, os serviços prestados, nada conta. E seu futuro incerto a ninguém interessa: não há justiça, não há direito, não há reconhecimento. Você fica só e entregue à própria sorte. Direitos humanos!. Ora, os direitos humanos! E os meus direitos, quem os respeitou?. Quem os defendeu? Tenho passado, já sexagenário, agruras pelas quais nunca esperava. A herança havida de meu pai, foi toda ela gasta com defensores, advogados que fizeram jus ao que receberam por seu trabalho e muitos outros que me defenderam sem nada receber, porque eu já não tinha posses para fazê-lo. Nesse ponto, não posso deixar de registrar minha gratidão a dois profissionais que fizeram minha defesa sem receber remuneração: Dr. Joseval Peixoto Guimarães e Dr. Abdalla Achcar. O primeiro, amigo de infância desde o Estado do Paraná, e o segundo ex-colega das lides policiais. Tudo isso, por crimes que não cometi. Deixo nas mãos de Deus meu julgamento justo, reto e imparcial, sem nenhum temor. Estou errante pelas ruas, procurando meus direitos humanos. Nunca os encontrei em nenhuma porta em que bati.

 

Nossa maior segurança está na preservação de nossa liberdade. Nós não somos livres porque somos fortes; ao contrário, somos fortes porque somos livres.



Manchete principal do “Diário da Noite” da época


 ©2006 Astorige Corrêa


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Junho 2006

 

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