Pesquisa inédita com antídoto para veneno de abelha africanizada entra na fase final para registro do produto

JORNAL DO GUMA "SAÚDE"


Botucatu, localizada no interior de São Paulo, é uma cidade de grande relevância científica em seu contexto histórico. Foi nesta cidade que, em 1895, o Dr. Vital Brazil Mineiro da Campanha atendeu seus primeiros pacientes picados por cobras e iniciou suas pesquisas em busca de um antídoto.

Na época, não havia sequer uma alternativa para tratar esses pacientes. A situação era tão difícil que o médico chegou a importar um soro ainda experimental da França, sem qualquer garantia de que essa seria a solução.

Atualmente, o cenário é completamente oposto ao do passado. Afinal, a cidade abriga o renomado Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Unesp de Botucatu que, em parceria com o Instituto Vital Brazil de Niterói – RJ, foi responsável por desenvolver o primeiro e único tratamento contra picadas de abelha africanizada.

A iniciativa do estudo, 
“Um ensaio de fase I / II para tratar picadas maciças de abelhas africanizadas (Apis mellifera) usando o novo antiveneno apílico“,
divulgado no periódico MedRxiv e disponível de forma inédita e ainda em formato preptint em: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.12.26.20248062v1 ( partiu de um grupo de pesquisadores da Unesp, incluindo Rui Seabra Ferreira Jr e Benedito Barraviera, membros do Núcleo de Empreendedorismo e Inovação (NEI) do Parque Tecnológico Botucatu.
“Os resultados foram excelentes, pois mostraram que o produto é seguro para o uso em humanos, já que não tivemos qualquer problema relacionado ao produto nestes pacientes. “Além disso, certamente já ajudamos a salvar alguns deles, pois chegaram ao hospital com centenas de picadas e, talvez, sem um tratamento específico, correriam um maior risco de vir a óbito”, 
 comenta Seabra.

Visando inovação na área da saúde, a pesquisa teve como intenção avaliar a segurança, dose mínima ideal e eficácia do antiveneno (AAV) para abelhas africanizadas.

Após 10 anos de desenvolvimento, cinco anos de produção, agora com autorização

Da Agência Nacional de Vigilância Sanitária(Anvisa) e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), com apoio do DECIT – Ministério da Saúde, foi realizado um ensaio clínico inédito mundialmente envolvendo 20 participantes. Até o momento, nenhum ser humano havia recebido tratamento desse tipo para acidentes com abelhas africanizadas.

Estes pacientes apresentavam de sete a duas mil picadas e receberam de 2 a 10 frascos de AAV com base no número de picadas, juntamente com tratamento padrão para casos de ataque de abelhas. Primeiro, os pesquisadores se atentaram à presença de reações adversas nas 24 horas iniciais após o tratamento e durante as quatro semanas seguintes.

Para essa análise, foram realizados ensaios do tipo ELISA, que se baseiam nas reações antígeno-anticorpo. Além disso, trabalharam com a espectrometria de massa e estimaram o comportamento do veneno antes, durante e após o tratamento.

De acordo com o protocolo, 16 participantes receberam dois frascos de AAV, três receberam 6 frascos e um recebeu 10 frascos.

Dois pacientes apresentaram eventos adversos leves, apenas com coceira transitória na pele e eritrodermia (dermatite esfoliativa). Porém, não houve interrupção do tratamento devido a eventos adversos agudos e não ocorreram reações adversas tardias, o que já foi um excelente sinal para os pesquisadores.

Tais resultados só foram deixando-os mais otimistas. Com o tempo, os ensaios mostraram que os níveis de veneno diminuíram em todos os casos durante o período de hospitalização, ou seja, estavam no caminho certo.
“Agora vamos iniciar a fase final de testes e o registro do produto que deverá ser feito pelo Instituto Vital Brazil no RJ. Além de atender as necessidades no Ministério da Saúde, que deverá distribuir gratuitamente pelo SUS aos municípios brasileiros, este soro poderá ser exportado e utilizado para o tratamento de outras subespécies da abelhas Apis mellifera, ajudando a minimizar o déficit da balança comercial brasileira em medicamentos”, 
completa o pesquisador Rui Seabra.

Assim, com resultados de segurança promissores, eficácia na melhora clínica e diminuição imediata do nível de veneno no sangue, o AAV demonstrou ser seguro para uso humano e Botucatu se consolida como um centro de geração de conhecimento e Inovação em saúde no Brasil e no mundo.