Variante delta plus: ‘prima’ do coronavírus dominante põe especialistas em alerta

JORNAL DO GUMA

Do EL País



Com a covid-19 não se pode baixar a guarda. Apesar da elevada cobertura vacinal na Espanha ― superior a 78% da população ― e de uma incidência de apenas 49 casos por 100.000 habitantes nos últimos 14 dias, a linha de frente na batalha contra o coronavírus se mantém vigilante contra possíveis ameaças que lhe façam perder o controle da pandemia. No Brasil, a cobertura vacinal com esquema completo está em 53,12% da população. A mais nova possível ameaça que se desenha na Espanha é uma sub-linhagem da variante delta, ligeiramente mais transmissível, que levou epidemiologistas e microbiólogos a redobrarem a cautela. Os casos pela chamada variante delta plus ― até 30 diagnósticos já ocorreram na Espanha e até o momento não houve diagnósticos no Brasil ― confirmam que ela já circula por várias regiões, embora os especialistas apontem que não parece ser mais agressiva e pedem calma. Mas não se sabe se ela de alguma forma é capaz de burlar as vacinas, o que é uma hipótese pouco provável.

O nome técnico desta subvariante da delta é AY.4.2, detectada pela primeira vez no começo do semestre no Reino Unido, segundo o Centro Europeu de Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês). Diferencia-se da delta, predominante na Europa atualmente, porque tem cinco mutações e pode ser entre 10% e 15% mais transmissível, apontam os especialistas consultados. Quando surgiu, a delta, descoberta na Índia, já era 50% mais transmissível que sua antecessora, a alfa (que era, por sua vez, 50% mais capaz de infectar que a primeira versão do vírus SARS-CoV-2, a de Wuhan).

O ECDC mantém esta nova linhagem da delta dentro das “variantes sob monitoramento, ou seja, aquelas que têm indícios de terem propriedades similares às variantes preocupantes ― um impacto significativo na transmissibilidade, na gravidade ou na imunidade ―, mas os testes feitos até o momento são frágeis ou não foram devidamente avaliados pelo ECDC. Juan García Costa, vice-presidente da Sociedade Espanhola de Virologia, pede cautela com os dados que chegam do Reino Unido: “Não há nenhuma evidência de que a delta plus possa assumir o nicho ecológico da delta. Mas, por ser uma subvariante [não se trata de uma variante nova, mas de uma sub-linhagem da delta], o resultado clínico não será muito diferente. Não sabemos se irá se impor, se desaparecerá, ou se as duas conviverão”.

Por enquanto, no Reino Unido, esta prima da variante delta já representa cerca de 6% dos casos detectados na primeira semana de outubro, segundo o último relatório da Agência de Segurança Sanitária britânica. Mas as autoridades descartam, por enquanto, que seja mais agressiva: “Embora as evidências ainda estejam aparecendo, até agora não parece que esta variante cause uma doença mais grave ou faça que as vacinas atualmente usadas sejam menos efetivas”, afirma o relatório britânico. O Gisaid, base de dados internacional de sequenciamento de vírus humanos, notificou a presença desta linhagem em cerca de 30 de países. Na Espanha foram confirmados casos, pelo menos, na Catalunha (cinco), Navarra (um), Madri (quatro), Andaluzia (um), Extremadura (três), Castela-La Mancha (três) e Castela e Leão (quatro), embora no Gisaid, onde os microbiólogos relatam as amostras sequenciadas, constam até 35 casos da delta plus com origem na Espanha, segundo os dados reunidos pelo Ministério da Saúde no último relatório sobre variantes.

Cifras à parte, Tomàs Pumarola, chefe de Microbiologia do Hospital Vall d’Hebron, de Barcelona, pede calma. “Tanto faz o número de casos. O importante é que esta variante circula pela Espanha e continua sendo esporádica. É preciso ver como evolui, ficarmos vigilantes para o caso de se espalhar, e ver se escapa mais ou menos à vacina. Mas não parece mais virulenta”, resume o microbiólogo.

Também Elena Vanessa Martínez, presidenta da Sociedade Espanhola de Epidemiologia, reduz a tensão sobre esta subvariante. Ao menos por enquanto. “Aconteceu o mesmo com outras sub-linhagens da delta, que subiram e depois voltaram a baixar. Parece que tem mais transmissibilidade, mas isto teremos que ir vendo. É preciso acompanhar de perto, com lupa, todos estes vírus”. Há mais de uma centena de linhagens notificadas descendentes da delta. Jesús Rodríguez Baño, chefe de Doenças Infecciosas do Hospital Virgen de la Macarena, em Sevilha, insiste, porém, em que “a chance de [a delta plus] escapar da vacina é baixa”: “Acho que fazemos bem em manter a vigilância, mas fazemos mal em nos obcecar com cada variante”, reflete.

Os especialistas descartam, em todo caso, que o atual pico de contágios no Reino Unido (925 casos por 100.000 habitantes em 14 dias) esteja estreitamente relacionado com a expansão da delta plus. Pumarola afirma que “os números não batem” e acrescenta que “a Inglaterra deu um grito de alerta, sendo que tem uma infecção baixíssima por esta subvariante e que não justifica a alta incidência que tem. Esta sub-linhagem representa apenas 6% das novas infecções. Acho que é mais uma questão de terem voltaram à normalidade completa: veem muitas infecções e também há um impacto nos hospitais”.

Reino Unido sem máscara

Martínez concorda e observa, além disso, que no Reino Unido é permitido também tirar a máscara em ambientes internos, e que suas taxas de vacinação (67% da população total recebeu a pauta completa) é mais baixa que a de outros países, como a Espanha. Toni Trilla, chefe de Epidemiologia do Hospital Clínic de Barcelona, também atribui a forte circulação do vírus no Reino Unido a um acúmulo de motivos além da delta plus: “É um coquetel de abertura de medidas de proteção, baseando-se em um critério político e econômico, com condições de vacinação inferiores, o que torna a situação do Reino Unido diferente da situação da Espanha, e mais complicada”.

Assim, na hora de extrapolar o que acontece no Reino Unido em geral e com a variante delta plus em particular, os especialistas apontam a necessidade de contextualizar a situação: as medidas de proteção na Espanha não são tão brandas, e, em todo caso, a situação epidemiológica tampouco é mesma de quando se impuseram outras variantes, como a delta e a alfa: agora, boa parte da população está vacinada. “Desde que se detectou no Reino Unido até agora, passaram-se meses, e só são 6% de novos casos. Não foi com a mesma velocidade da delta. Talvez não tenha tanta capacidade de se impor e encontre, além disso, mais gente vacinada”, reflete Trilla. Pumarola recorda que a variante alfa só começou a se disseminar de forma rápida quando alcançou 10% do espaço de novos contágios, então “é possível que [as variantes] necessitem de um mínimo de presença para aumentar de forma mais rápida”, cogita.

Contudo, o microbiólogo do Hospital Vall d’Hebron parte da premissa de que será preciso se acostumar à aparição de novas variantes: “Desde que a delta se introduziu, o que vemos é que está se diversificando devido à pressão imunológica, porque se depara com pessoas vacinadas ou já infectadas”. O microbiólogo argumenta que, apesar do final da pandemia como tal estar perto, este coronavírus “veio para ficar”. “À medida que estivermos todos vacinados, este vírus mudará de forma mais rapidamente e obrigará a reformular as vacinas, que estão sendo feitas com a variante de Wuhan. Atualmente estamos protegidos contra a gravidade, mas nem tanto contra a infecção, e o vírus circula mais livremente. Aparecerá uma variante que obrigará a nos revacinarmos”, prevê o especialista.