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PÁGINA DE DOMINGO "O que sinaliza a ‘Grande Renúncia"

JORNAL DO GUMA

Estadão


Fernando Magalhaes Costa

Se no Brasil milhões de trabalhadores buscam empregos que sumiram do mercado, é quase surreal imaginar o inverso: excesso de ofertas de trabalho e escassez de candidatos. Mas isso está acontecendo nas duas maiores economias do mundo, EUA e China, entre outras. A onda de demissões voluntárias conhecida como a Grande Renúncia (Great Resignation) chama a atenção por sinalizar uma potencial mudança existencial no mercado de trabalho.

Altas taxas de demissão voluntária indicam a confiança dos trabalhadores em sua capacidade de conseguir empregos mais satisfatórios e, tipicamente, coincidem com momentos de prosperidade. Inversamente, em períodos de incerteza, as demissões voluntárias e contratações se contraem. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Grande Recessão e no início da pandemia.

Em 2021, à medida que a imunização e a recuperação avançavam, as ofertas cresceram, mas, paradoxalmente, massas de trabalhadores, especialmente nos EUA, pediram demissão sem se recolocarem.

Como especulou o Financial Times, em editorial, parte do fenômeno pode estar relacionada ao modo como os EUA lidaram com a pandemia: “Enquanto os europeus protegeram empregos, os EUA protegeram o crescimento”. Nos EUA as empresas demitiram à sua conveniência e o governo distribuiu auxílios aos desempregados. Com a retomada, as empresas precisaram rapidamente preencher vagas. “Essa rotatividade, combinada ao auxílio para desempregados, deu a milhões de trabalhadores o tipo de alavancagem que nunca tiveram antes.”

O fenômeno não é só americano. Um protesto similar na China – “ficar deitadão” (tang ping) – sugere uma rejeição à sobrecarga de trabalho. Segundo pesquisa da Microsoft, 40% da força de trabalho mundial considera abandonar seu emprego.

O êxodo vem sendo puxado pelos Millennials e a Geração Z. Isso sugere que respostas tradicionais – melhores salários e benefícios – talvez não sejam suficientes. Muitos encontraram ganhos no trabalho remoto, como a flexibilidade de agenda, aos quais não estão dispostos a renunciar, e parecem buscar um melhor equilíbrio entre vida e trabalho.

Para os governos, isso pode implicar o desafio de reconfigurar suas redes de proteção social para combinar segurança e flexibilidade. O desafio é similar para as empresas. Regimes híbridos tendem a ser favorecidos. Elas também precisarão elaborar planos de carreira flexíveis, estratégias de identificação e retenção de talentos e recalcular custos e benefícios entre a rotatividade e a retenção.

Por ora, essas escolhas são um desafio (ou um luxo) restrito às economias desenvolvidas. Mas elas podem sinalizar uma reconfiguração global das relações entre capital e trabalho. Se será uma em que todos ganham – ou todos perdem –, dependerá da capacidade de cada parte de discernir prioridades genuínas e negociar condições razoáveis. Em uma economia cada vez mais descentralizada, governos e organizações da sociedade civil, mais do que impor condições gerais de parte a parte, têm o desafio de compensar disparidades e intermediar acordos concretos entre elas.l

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