terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Morte do dono da lendária "Venda de Arandú" repercute e comove




Jornal Fora de Pauta foi provavelmente o último veículo jornalístico a entrevistar o comerciante Osvaldo Lopes Filho, cujo corpo foi encontrado carbonizado no domingo, 3 de dezembro, em Avaré.
O corpo do comerciante Osvaldo Lopes Filho – proprietário da lendária venda de Arandu que já foi capa de disco de Chitãozinho e Xororó nos anos 90 – foi enterrado nesta segunda-feira, 4 de dezembro, em Avaré.  
A vítima foi encontrada carbonizada no domingo, 3, na residência onde morava no Bairro Avaré I.  
O aranduense tinha 50 anos. A Polícia Civil investiga o caso.
Personagem folclórico na região por conta de seu estabelecimento, Osvaldinho, como era mais conhecido, foi tema da primeira reportagem do Fora de Pauta em junho. Foi provavelmente a última entrevista que ele concedeu a um veículo jornalístico.
Veja a reportagem completa↙

Conheça a venda que foi capa de disco sertanejo nos anos 90

Cenário do álbum “Cowboy do asfalto”, sucesso de Chitãozinho e Xororó, estabelecimento rural de Arandu, no interior de São Paulo, se agarra à tradição para enfrentar os desafios dos novos tempos
FLÁVIO MANTOVANI
O sujeito do outro lado da linha parece irredutível. “Eu não tenho mais estrutura pra isso”, justifica, ao negar a intenção de conceder entrevista.
O prognóstico não é nada positivo. Contar a história de Osvaldo Lopes Filho – o atual proprietário da famosa venda de Arandu que já foi capa de disco de Chitãozinho e Xororó – foi a primeira matéria pensada para o Fora de Pauta. Uma negativa assim, logo de cara, não parecia um bom presságio para um projeto editorial que estava apenas começando.
A reportagem tenta a cartada final. Argumenta que o estabelecimento em questão pertence ao roteiro turístico da região, promete que o encontro terá os moldes de uma conversa entre compadres e fala mais uma vez sobre a proposta do site. A explanação desesperada surte efeito. Osvaldinho, como é mais conhecido, aceita falar, mas fixa uma condição. “Não vai ter filmagem, né?”, diz, antes de desligar o telefone.
Uma forte chuva acompanhada de rajadas de vento castiga o Bairro Ribeirão Preto. Não há qualquer sinal de movimentação no local; as portas estão cerradas. Exatamente no horário combinado, o comerciante espia pela fresta.
Após as formalidades iniciais, a entrevista começa, mas as entradas do estabelecimento têm que ser mantidas fechadas por causa do temporal que ameaça invadir o imóvel.
 “Cowboy do asfalto”
Outubro de 1990. Chitãozinho e Xororó já estavam no auge quando desembarcaram em Avaré para um show e a gravação de um especial de final de ano que seria exibido pela Globo. Nesse meio tempo, foram informados de que uma venda na vizinha Arandu poderia servir de cenário para o próximo disco da dupla, “Cowboy do asfalto”, previsto para o ano seguinte. “A gente queria essa cara para a capa, um lugar assim. Por coincidência a gente estava na cidade e falaram desse lugarzinho bacana”, lembra Xororó numa matéria veiculada pelo Programa Ponta a Ponta, da TV Tem de Bauru, afiliada à rede carioca.
“Evidências”
A dupla apareceu três dias depois do combinado. Quando Osvaldinho e o pai surgiram a equipe toda já estava às portas do estabelecimento. Entre a sessão fotográfica na venda e na residência de uma tia, que fica na propriedade rural, os artistas também posaram no balcão. “Tomaram refrigerante e foram atenciosos”, lembra o entrevistado, apesar da rapidez com que tudo aconteceu.
Os sertanejos chegaram a perguntar se haveria alguma cobrança pelas imagens e obtiveram um “não” como resposta. Mas o proprietário diz não se arrepender. “A repercussão foi grande”, reconhece, embora a sessão tenha – sim – custado algo à dupla. “Eu pedi que esperassem um pouco. Meu pai foi de Fusca buscar minhas irmãs em Avaré e eles autografaram os discos que elas trouxeram”, rememora.
A foto que virou capa foi feita na lateral da venda. Outras duas imagens registradas na propriedade foram para a contracapa: a dupla na janela da casa da tia e na outra lateral da venda, às margens da estrada de chão batido, hoje já coberto pelo asfalto que termina logo em seguida. Uma terceira fotografia foi tirada com uma cascata ao fundo, provavelmente em Águas de Santa Bárbara, distante aproximadamente 60 quilômetros. As demais cenas capturadas ali – como a do balcão – nunca chegaram às mãos do aranduense.
Os indícios da passagem de Chitãozinho e Xororó não estão apenas na memória, mas também espalhados pelo rústico estabelecimento. Um relógio de parede baseado na capa de “Cowboy do asfalto” e um disco autografado protegido por uma moldura disputam a atenção na parede à esquerda. Este último traz a inscrição “Senhor Osvaldinho: nosso carinho. Chitãozinho e Xororó”. O item foi presente da equipe da TV Tem, que havia falado com a dupla antes de gravar uma matéria no local em setembro de 2011.
O assunto, claro, é recorrente ali, mas o aranduense diz que ainda não se cansou de contar a história. “Sempre perguntam se é verdade. Tem gente que quer saber até em qual banco eles se sentaram. Caramba, né? Fui um privilegiado: ter Chitãozinho e Xororó no meu bar”, conta, como se a lembrança trouxesse à tona a intensidade do momento vivido há quase 18 anos.
“Nuvem de lágrimas”
O proprietário serve uma dose de cachaça à reportagem, mas o ruído do líquido sendo derramado no copo é praticamente abafado pelo barulho da chuva que espanca o telhado e as paredes do singular imóvel. O comerciante então volta a garrafa à prateleira de tábua crua que acomoda engradados empoeirados, troféus e pacotes de salgadinho.
Uma das lâmpadas pifa, deixando o ambiente ainda mais escuro. Prontamente, o aranduense fica na ponta dos pés e gira a peça tubular enegrecida pelo tempo, que pega no tranco. A sensação é de que estamos nos anos 50.
A visita ilustre, no entanto, não é passagem mais marcante para o sujeito que está do outro lado do balcão. Corria o longínquo 1º de maio de 1990 quando o avô Anísio, fundador do negócio, decidiu encerrar o expediente pontualmente às seis horas. Osvaldinho concordou prontamente: estava louco para ir embora. Os pais moravam em Avaré.
O velho havia percebido a intenção do neto e disparou uma frase que ainda hoje mexe com o interlocutor. “Ele falou que não ia faltar carona pra mim. Eu olhei pra um lado, olhei pro outro: não tinha mais ninguém. Não vai faltar carona como?”, perguntou a si mesmo na ocasião.
Saíram pela portinhola lateral, aquela da capa do disco; o avô bateu o cadeado. Osvaldinho seguia à frente no pasto, a uma pequena distância, quando ouviu algo diferente. Assim que olhou pra trás, Anísio já estava no chão, vencido por um infarto fulminante. “Da mesma forma que abriu a venda, ele fez questão de fechar a porta pela última vez. Acabou a história. E começou uma nova”, conta o entrevistado, sem alterar o tom de voz, apesar da emoção florescente.
As histórias só se entrelaçam quando Osvaldinho especula qual teria sido a reação do avô ao receber os artistas. “Será que ele ia ficar contente vendo essa dupla tão famosa aqui? Às vezes me pergunto, sabe?”, confidencia.

“Eu sei que te amo”
O vendeiro assumiu de vez o estabelecimento depois que o pai – que também se chamava Osvaldo – faleceu há sete anos.
Aos 49 anos, o aranduense testemunhou boa parte da transformação vivenciada pelo negócio da família que já tem aproximadamente 80 anos. Passou de mercadinho, que abastecia a população rural nas primeiras décadas, à venda propriamente dita, restrita praticamente à oferta de doses e petiscos, principalmente depois que o êxodo rural se acentuou nas últimas décadas.
Osvaldinho não esconde que às vezes tem vontade de largar tudo, arrendar o espaço e, na perspectiva mais ousada, vender a venda, apesar de gostar do lugar. O sentimento, porém, sempre acaba falando mais alto. Hoje ele abre com menos frequência, mas pretende tocar adiante.
“Não fecho por causa da família. O pessoal que frequenta também é contra. Enquanto eu estiver vivo, não vai ter jeito. O coração meu está aqui. Fui pesado nessa balança quando nasci”, relembra, apontando para o equipamento sobre o balcão.
De certa forma, a tradição também se reflete na renovação da clientela. “A criançada que vinha comer paçoquinha e beber Tubaína hoje vem tomar cerveja. Depois de 30 anos, o pessoal retorna com filhos e netos. Esse é o legado, o mais importante pra mim: rever essas pessoas depois de tanto tempo”.
O futuro, portanto, parece não atemorizar o entrevistado, que não tem filhos. “A Deus pertence. Às vezes eu brinco: quando eu vier a faltar, deixa tudo aberto pra turma olhar e tirar foto”, diz o proprietário, que ressalta o apoio recebido dos amigos para seguir adiante depois que o pai morreu.
“Gente humilde”
Mais uma dose é servida a pedido do repórter. A chuva diminui. Já é possível abrir as portas de madeira e observar a paisagem que se descortina: um vale e um braço da Represa Jurumirim embelezam o horizonte.
Na matéria da TV Tem, ao ser informada de que o estabelecimento ainda existia, a dupla revelou que gostaria rever o local um dia. Como seria?
“Hoje eu aproveitaria mais. Na época eu não tinha essa noção, embora já fizessem sucesso. Hoje eu sei da grandiosidade dos dois, eles abriram o caminho para a geração nova. Mas com certeza não vão avisar, senão tumultua. Vão me pegar de surpresa de novo”, ri.
Atrás do mitológico balcão, espécie de quartel general no qual se vê seguro, o homem vai perdendo a aparência frágil na medida em que ganha confiança. Ouve as perguntas com atenção, narra histórias com prazer. Até as paredes parecem reconhecer: Osvaldinho é um elemento fundamental ali.
“Esse pau era usado pra desossar boi”, conta sobre a estrutura de madeira que fica num canto. Outros itens que ajudam a compor o cenário, como vigas e a prateleira, permanecem onde estiveram desde sempre. “Não mexo. Se tiver que cair, caiu. É assim mesmo e vai até o fim”, assegura.
Um resquício de sol – surpreendentemente – desponta naquele final de tarde. A fala calma do entrevistado, típica de interiorano, se molda ao sentimento de paz que domina os arredores.
Integrado a esse ambiente que ele conhece tão bem, do qual fez parte e sobre o qual sente que tem responsabilidade, homem e venda se transformam numa entidade só.
Epílogo
Depois de posar para a câmera, Osvaldinho aceita a tarefa de me fotografar ao lado da porta utilizada como cenário por Chitãozinho e Xororó. “Se eu cobrasse R$ 1 por cada foto – não precisa mais que isso – já estaria rico”, brinca.
É uma mudança radical para quem tentou evitar a entrevista. Mas a sessão fotográfica é interrompida pelo representante comercial Gilmar Carvalho, o primeiro cliente do dia, que nos convida para uma cervejinha.
Carvalho é mineiro de Governador Valadares, mas reside há 20 anos em Arandu. Bem articulado, ele afirma que gosta do local por conta do conjunto da obra: a característica inimitável da venda, a beleza da natureza ao redor e a simpatia do proprietário, de quem já é amigo há bastante tempo. O mineiro, está claro, pertence ao grupo dos que desejam vida longa à antiga venda do Anísio.
Meio sem jeito, Osvaldinho pensa alto. “Essa força que recebo dos amigos me motiva a continuar. Não tem jeito de parar, né?”, conclui.