Nesta semana, o Facebook completou 15 anos de existência, o que é um baita feito, sobretudo quando falamos de empresas que atuam na internet. A rede alcança quase 2,5 bilhões de pessoas em todo o mundo com seus distintos serviços e continua tendo bons resultados financeiros, apesar de todas as polêmicas pelas quais a rede passou durante 2018 (da Cambridge Analytica até a participação indireta em genocídios em Myanmar).


Muita gente já cresceu com os serviços do Facebook por aí disponíveis e muitos têm certo bode da plataforma criada por Zuckerberg ou estão procurando alternativas (ainda que muitas vezes, dentro dos serviços da rede, como o Instagram). Para recordar um pouco de uma era pré-Facebook, resolvi bater um papo com um dos pioneiros em mídias sociais no mundo e o responsável pelo primeiro contato de rede social dos brasileiros: o turco Orkut Büyükkökten. foto abaixo


“O que fazia o Orkut.com tão especial é que a rede criava conexões autênticas e significativas entre as pessoas, e frequentemente estas conexões começavam com coisas que elas tinham em comum”, afirmou o criador da rede em conversa com o Gizmodo Brasil via Skype.

O Orkut.com [usaremos esta nomenclatura para diferenciar o serviço do fundador] foi criado em 2004 e durou 10 anos ao todo (portanto, menos que o Facebook). Penso que a principal vantagem da rede era justamente servir como um hub para interessados nos mais diversos assuntos (e sem algoritmos).

Se você gosta de futebol, existia uma (ou centenas de) comunidade(s) sobre o assunto. Se você queria saber sobre cirurgia bariátrica no SUS (!!!), também tinha um pessoal discutindo isso. Enfim, as pessoas iam ativamente até esses grupos para aprender, trocar ideias ou simplesmente participar de correntes do tipo “beija ou passa”. Não existia um feed, como o do Facebook em que as pessoas compartilham opiniões sobre os mais distintos assuntos.


Lógico que o Orkut.com também não era um mar de rosas. Conforme a base de usuários crescia, era comum ver maus usos da rede, como distribuição de pedofilia, difamação, entre outros crimes virtuais. No entanto, a percepção geral era de que a rede era um bom espaço, pelo menos, para se discutir assuntos específicos.

Falando diretamente da Califórnia (EUA), onde vive, Orkut nos contou sobre o estado atual das redes sociais no mundo, a queda do site que levava o seu nome e sobre o que ele tem feito com o Hello.com, sua nova rede social. Abaixo, um resumo da conversa com Orkut Büyükkökten:

Gizmodo Brasil: Qual sua avaliação sobre o Facebook?


Orkut Büyükkökten: O cenário de redes sociais mudou bastante na última década, desde o tempo que Orkut estava ativo. Não vou mencionar especificamente o Facebook, mas falo de redes sociais de modo geral.

Hoje 4 bilhões de pessoas têm acesso à internet, e 60% deles têm telefones móveis. Se olharmos só o alcance do Facebook, eles têm 2,32 bilhões usuários ativos, então estamos em uma era em que estamos sempre conectados e hiperconectados.

Se você reparar no que as mídias sociais fizeram para a gente e como mudamos as formas de comunicação entre nós, você vê que a maioria das vezes os resultados foram negativos. Redes sociais, em tese, deveriam nos tornar felizes e com que nos uníssemos, mas as coisas foram para a direção oposta.

O que acaba acontecendo é o seguinte: todos os algoritmos de inteligência artificial e machine learning são otimizados de modo que as pessoas compartilhem mais, e também sejam influenciadas psicologicamente em compartilhar coisas que elas acham que vão ter mais engajamento.

Como resultado, temos uma série de fotos de celebridades ou amigos com suas intermináveis férias pelo mundo. Fica um sentimento de que você nunca vai conseguir comparar sua vida com a dos outros, você nunca será bom o suficiente. Isso acaba produzindo infelicidade, isolamento, depressão, ansiedade e está criando uma geração que não é mentalmente saudável.

As redes sociais atualmente não são otimizadas para conectar as pessoas de forma significativa, mas para interesses de terceiros, anunciantes e grandes corporações.

Gizmodo Brasil: Como você reagiu quando ouviu as notícias de que o Facebook estava superando o Orkut?

Orkut: O Orkut.com foi pensado para uma geração completamente diferente e com tecnologias distintas. Quando lançamos, todas as pessoas acessavam a internet por meio de seus computadores; quase ninguém tinha smartphones com câmera na época. Foi desenvolvido para uma geração que estava usando uma rede social pela primeira vez na vida.

E neste ramo é muito importante prestar atenção no comportamento de uso dos usuários e como a tecnologia e infraestrutura evolui e muda com o tempo.

Mas quando penso no Hello.com [rede social criada por ele e lançada no Brasil em 2016], vejo como uma evolução espiritual do Orkut.com, mas criado para uma nova geração, que tem diferentes preocupações.


Gizmodo Brasil: Você acredita que o Facebook pode ser superado por outra rede social? Pergunto, pois a companhia tem as principais plataformas do mundo e não dá sinais de fraqueza…

Orkut: Tenho conversado com amigos, muitos deles mais novos, e vejo que eles migraram para outras plataformas. Tem cada vez mais gente usando o Instagram em vez do Facebook, por exemplo, e também é possível notar que tem havido uma mudança no perfil do público do Facebook em si.

Baseado no que vimos no passado, sempre existe uma certa redução no uso de determinadas redes sociais. Já vimos isso acontecer com o MySpace, Friendster, entre outras plataformas.

Quero dizer: em termos de redes sociais, temos de sempre lembrar que é sobre pessoas. É sobre conectar pessoas umas às outras de forma autêntica, e deve ser sobre melhorar e otimizar a rede para aumentar a felicidade real das pessoas.

Atualmente, elas têm um efeito esquisito. As redes sociais têm feito as pessoas interagirem menos na vida real, e está criando uma geração que tem uma série de inseguranças referente à autoestima e corpos. E as pessoas têm um senso de serem amadas, aceitas, de saber o número de curtidas e corações que recebem. E isso acaba criando um ambiente bem infeliz.

Há algumas companhias que pesquisam quais tipos de aplicação influenciam mais o humor das pessoas. A pesquisa Humane Tech tenta responder quais apps deixam as pessoas mais felizes e mais tristes, baseado no tempo que elas os utilizam. O número 1 que deixa as pessoas mais tristes é o Grindr, um app de relacionamento para gays, e o terceiro é o Facebook.

Se olhar nos apps que tornam as pessoas mais felizes, são apps sobre compartilhamento de interesses, que podem ser sobre exercícios físicos, música, filmes ou leitura.

No auge, o Orkut.com era sobre comunidades, compartilhar assuntos pelos quais as pessoas eram apaixonadas e estabelecer conversas e conexões entre elas. Era sobre aumentar a conectividade e felicidade dos usuários por meio da tecnologia.

Se olhar as redes sociais hoje, a maioria das vezes as pessoas postam algo superficial. E você só consegue criar conexões significativas ao compartilhar algo que envolve algum risco emocional e o torna vulnerável.

Olho meus feeds em outras redes sociais e fico pensando “nossa, eu odeio essas pessoas; por que sou amigo dela?”. Pois o conteúdo que ela posta é feito só para chamar a atenção. Isso vem de uma certa projeção de insegurança que as redes sociais criaram em nós.

Gizmodo Brasil: Você acha que Facebook pode se dar mal mantendo as coisas como estão? A rede sempre se mostra disposta a mudar, mas na sequência aparece sempre mais algum tipo de polêmica…

Orkut: Em redes sociais que lidam com pessoas é necessário haver confiança. E confiança é algo que é conquistado. Uma vez que você perde, é muito difícil de se recuperar. Então, este é o comentário que faria, mas não vou falar sobre o Facebook, em específico.

Acho importante que as redes sociais tenham propósito e que este propósito seja otimizar para que as pessoas sejam felizes e criem conexões autênticas.

Ao vender dados de usuários ou fazer coisas do tipo, você acaba perdendo confiança das pessoas. Embora ninguém leia os termos complexos quando você acessa o serviço, não é justo para qualquer corporação simplesmente dizer, “ah, está lá nos termos de serviço”. As companhias que compartilham dados das pessoas devem pedir explicitamente a autorização delas.

Gizmodo Brasil: Sei que agora você está trabalhando no Hello.com. O que você pode me falar sobre os usuários e quais países têm mais gente na rede?

Orkut: Até agora, nós só lançamos publicamente no Brasil. E temos cerca de 1 milhão de usuários. Além disso, temos um lançamento beta na Índia.

Estamos concentrados no Brasil, melhorando a experiência dos usuários baseado no feedback das pessoas e elaborando uma versão web. Além disso, português foi a primeira língua para o qual o Hello foi traduzido.

Guilherme Tagiaroli