ARTIGO ESPECIAL - Cuidado com boletos falsificados

Enquanto milhares de cientistas consomem seus dias (e noites) na tentativa de desenvolver vacinas e remédios contra a Covid-19, trambiqueiros estão falsificando boletos para roubar consumidores.
Para não ser vítima desta fraude, devemos ficar ainda mais atentos. Se o boleto for hackeado, a situação será ainda mais grave, pois estará com todos os dados corretos, mas será interceptado por criminoso. Um vírus altera a sequência numérica, e desvia o dinheiro para uma conta-corrente do golpista.
Pode ser qualquer tipo de conta. Tive conhecimento de um caso destes no boleto para pagamento de escola. Há falsificações mais fáceis de detectar, referentes a dívidas inexistentes.
Sempre que tiver qualquer dúvida, entre em contato com o prestador antes de pagar. Peça, por exemplo, que ele envie o código de barras por torpedo telefônico.
Há outras providências para não pagar gato por lebre. Operadoras de telecomunicações e outros prestadores sempre iniciam mensagens com o nome do cliente, e não com seu e-mail.




São Paulo, SP, Brasil, 21-08-2019: Still dinheiro. Cédulas. Real. (foto Gabriel Cabral/Folhapress
Empresas também não pedem que você confirme dados em links ou arquivos anexos para download. E não solicitam que entregue cartões bancários ou de crédito, nem chips de celular. Além disso, tenha sempre antivírus atualizado no computador e em dispositivos móveis.
Siga uma rotina: confira seu nome, número do telefone celular, CNPJ ou CPF, valor (para ver se bate com as contas recebidas nos últimos meses). Na hora do pagamento, veja se está direcionado à empresa.
Um boleto de plano de saúde sem coparticipação, por exemplo, terá o mesmo valor por vários meses, depois de reajustado, exceto quando algum dos beneficiários do contrato mudar de faixa etária. Então, se o valor cobrado for diferente, converse com a operadora.
Quem será responsável pela fraude? Cabe ao fornecedor oferecer um serviço ou produto seguro, inclusive no que se relaciona ao seu pagamento. Muitas vezes, as informações vazam das empresas, por dupla falha de segurança, pois, de um lado, permitem o vazamento dos dados dos clientes; de outro, não têm mecanismos seguros de checagem da autenticidade dos boletos.
Mas se você não seguir regras básicas de segurança digital (como não abrir anexos desconhecidos e não clicar em links enviados por e-mail ou mensagem), correrá mais risco de sofrer este tipo de golpe.
Vizinhas minhas receberam telefonemas de supostos interessados em comprar seus apartamentos. Novamente, algo muito perigoso, pois pode ser o salvo-conduto para um bandido entrar em um condomínio seguro com autorização do morador.
Se não tiver colocado o imóvel à venda, ignore a ligação. Caso contrário, peça o contato da imobiliária que intermediará o negócio. Lembro que vários crimes já foram cometidos, inclusive assassinatos, por falsos compradores de veículos, em resposta a um inocente anúncio.
Prédios também foram invadidos por falsos prestadores de serviços. As teles e outras companhias não costumam enviar funcionários para visitas técnicas, exceto quando a solicitação parte do cliente. Antes de autorizar o ingresso de qualquer pretenso técnico, verifique com a empresa por ele citada se o enviou ou não ao prédio.
Quando já estava concluindo este texto, um amigo me informou de um SMS recebido de um grande banco, advertindo que não fazia videochamadas para ajudar os clientes no caixa eletrônico. Advertência contra mais uma ação criminosa!
É lamentável que tenhamos de desconfiar de tudo e de todos, inclusive de boletos que nos são enviados pelo Correio ou por e-mail. Mas estes criminosos, que já recorriam a este expediente antes do coronavírus, também parecem não acreditar em isolamento social.


Maria Inês Dolci
Advogada especialista em direitos do consumidor, foi coordenadora da Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor).  DA FOLHA